Assumir responsabilidade

Na última semana pensei bastante no assunto responsabilidade. O contexto foi o caso da marca de roupas Animale e do grupo Soma, que abriga marcas como FARM, a.brand e fábula, entre outras. A denúncia de que o grupo terceiriza a produção para trabalhadores em <eufemismo> “condições análogas à escravidão” </eufemismo> revolta, mas não surpreende, especialmente no contexto da moda.

A reação no Facebook seguiu o protocolo: muita gente postando textão, muitos revoltados (eu, inclusive) entrando na página da marca e comentando nas postagens, anúncio oficial publicado em linguagem corporativa. Hoje em dia é assim: escravidão é “trabalho irregular” e fornecedores vivem num mundo paralelo que exime os contratantes de culpa.

“Nunca mais entro nessa loja!”, “Perdeu um cliente para sempre”, “Que nojo da empresa X”, “Isso é herança do PT”

Estava no meio dessa manifestação em praça digital e a propaganda no topo da página da Animale atraía meu olhar: Bruna Marquezine, Juliana Paes, Alinne Moraes, Sabrina Sato, Mariana Ximenes, Carolina Dieckmann, Luisa Arraes. Se fosse time de futebol seria um Barcelona. Famosas da mais alta estirpe vendendo a imagem para gerar desejo pela marca, nada de novo no mundo do Marketing e da Economia.

Me bateu uma angústia. De quê adianta xingar a Animale? Para quem uma marca responde, qual linguagem que ela usa? Já adianto a resposta: uma marca responde ao mercado, não às pessoas; a linguagem é o corporativês.

Mas lá estava um banner enorme com pelo menos sete das mais famosas atrizes brasileiras. Atrizes que provavelmente não tinham conhecimento do suor de trabalhadores em condições precárias por trás das roupas que vestiam e da produção glamourosa que estrelaram. Pensei no que faria se fosse comigo. Doar o cachê recebido para organizações de proteção ao trabalho seria o mínimo. Resolvi escrever uma mensagem “conclamando” tais atrizes a se pronunciarem. Ganhei curtidas, corações, comentários de apoio. E acabou.

Dias depois estou eu aqui, escrevendo esse texto. Chequei Twitter, Instagram e Facebook de todas as atrizes citadas. Hoje, dia 23/12, quatro dias depois da notícia sobre a Animale sair, nenhuma atriz se pronunciou a respeito. Nada. Nem mesmo uma mensagem protocolar de que estão em contato com a marca para esclarecer, de que não apoiam trabalho escravo ou sobre a importância do consumo consciente de forma genérica. N-A-D-A.

E aí o assunto que ficou martelando foi esse: assumir responsabilidade. Uma marca pode assumir responsabilidade de algo? Ou são as pessoas que estão envolvidas com a marca? Mais uma vez dou a resposta direto: são as pessoas. As pessoas são os consumidores, os funcionários, os artistas, os publicitários, as vendedoras, o presidente do grupo Soma Roberto Jatahy, o diretor de produção (ou seja lá o nome do cargo), os estilistas. Temos uma cadeia enorme de trabalhadores que não são explorados e que simplesmente viram o rosto na hora de assumir a responsabilidade. São deles que temos que demandar uma resposta, um posicionamento humano para reparar uma situação profundamente desumana.

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