Ei, Programadores! Parem de odiar Humanas

Compartilho abaixo a tradução livre de um texto de Emma Pierson, postado em Abril de 2017 na Wired Magazine. Uso ele para abrir o assunto que será constante no meu blog nas próximas semanas. A versão original em inglês está disponível no link acima.

Como estudante de doutorado em ciência da computação, sou uma discípula de big data. Não vejo nenhum tópico sagrado para análises estatísticas: usei-as para estudar tudo, desde sexo a Shakespeare, e recebi respostas raivosas para essas tentativas. Em Stanford, na adolescência, eu recebia armas elegantes e letais – algoritmos que poderiam identificar os terroristas mais perigosos, ou detectar a insatisfação de alguém com o governo por meio de seus textos on-line.

A ciência da computação é maravilhosa. O problema é que muitas pessoas no Vale do Silício acreditam que ela é tudo o que importa. Você vê isso quando recrutadores em feiras de carreira deixam claro que só estão interessados nos cientistas da computação; na diferença salarial entre estudantes de engenharia e não-engenheiros; nos olhares inquisitivos que os estudantes de humanidades recebem quando ousam revelar suas especialidades. Eu vi cientistas de computadores brilhantes mostrarem uma ignorância tão lamentável sobre as populações que estavam estudando que eu só pude rir diante deles. Eu observei cientistas militares apresentarem suas inovações letais com um entusiasmo infantil, sem mencionar a quem as armas estão sendo usadas. Há poucas coisas mais assustadoras do que um cientista que pode dar uma palestra acadêmica sobre como atirar num ser humano, mas não pode raciocinar se você deveria estar atirando neles em primeiro lugar.

O fato de tantos cientistas da computação serem ignorantes ou desdenhosos em relação a abordagens não-técnicas é preocupante porque, em meu trabalho, estou constantemente confrontando questões que não podem ser respondidas com código. Quando eu fui programadora na Coursera, uma empresa de educação on-line, desenvolvi um algoritmo que recomendava aulas para pessoas com base em seu gênero. Mas a empresa decidiu não usá-lo quando descobrimos que isso afastaria as mulheres de cursos em ciência da computação.

Acontece que esse efeito – em que os algoritmos entranham as disparidades sociais – ocorre em domínios que vão da justiça criminal à pontuação de crédito. Este é um dilema difícil: na justiça criminal, por exemplo, você é confrontado com o fato de que um algoritmo que atende a determinantes estatísticos básicos também é muito mais provável de classificar réus negros como de alto risco, mesmo quando eles não seguirão adiante cometendo outro crime.

Eu não tenho uma solução para esse problema. Eu sei, no entanto, que não vou encontrá-lo no meu livro de algoritmos; Tenho muito mais probabilidade de encontrar fatos relevantes no trabalho de Ta-Nehisi Coates sobre discriminação sistêmica ou de Michelle Alexander sobre o encarceramento em massa.

Meus projetos pessoais têm apresentado questões éticas espinhosas semelhantes. Devo escrever um programa de computador que irá baixar as comunicações de milhares de adolescentes que sofrem de transtornos alimentares postados em um site de aconselhamento de anorexia? Escrever um programa para postar mensagens anônimas e suicidas em centenas de fóruns universitários para ver quais faculdades oferecem mais apoio? Minha resposta a estas perguntas, incidentemente, foi “não”. Mas eu considerei isso. E a glória e o perigo dos computadores é que eles aumentam o impacto de suas fantasias: um impulso se torna um programa que pode prejudicar milhares de pessoas.

Talvez seja mais eficiente permitir que cientistas da computação façam o que sabem melhor – escrever código – e deixar para que outras pessoas regulem nossos produtos? Isso é insuficiente. Os programadores desenvolvem produtos em velocidade alucinante, muitas vezes encobertos pelo sigilo da indústria; Quando a legislação chegar, milhões de pessoas já poderão ser prejudicadas. O treinamento de ética é necessário para profissionais de outras áreas, em parte porque é importante que médicos e advogados possam agir com ética, mesmo quando ninguém está olhando. Além disso, os cientistas da computação precisam ajudar nas regulamentações porque eles possuem o conhecimento técnico necessário; É difícil regular o viés algorítmico de word embeddings se você não tem ideia do que é um word embedding.

Aqui estão alguns passos recomendados. As universidades devem começar com um treinamento mais amplo para estudantes de ciências da computação. Entrei em contato com oito dos principais programas de graduação em ciência da computação e descobri que a maioria não exige que os alunos façam um curso sobre questões éticas e sociais (embora alguns ofereçam cursos opcionais). Esses cursos são difíceis de ensinar bem. Os cientistas da computação muitas vezes não os levam a sério, não se sentem à vontade com o pensamento não quantitativo, são excessivamente confiantes porque são matematicamente brilhantes ou estão convencidos de que o utilitarismo é a resposta para tudo. Mas as universidades precisam tentar. Os professores precisam assustar seus alunos, fazê-los sentir que eles recebem as habilidades não apenas para ficar ricos, mas para destruir vidas; eles precisam torná-los humildes, para fazê-los perceber que, por melhores que sejam em matemática, ainda há muito que eles não sabem.

Um currículo mais socialmente orientado não apenas tornaria os programadores menos propensos a causar danos; ele pode também torná-los mais propensos a fazer o bem. As escolas de ponta desperdiçam muito do seu talento técnico em atividades socialmente inúteis (mas que pagam bem), como algorítmicos de trading. Como Andrew Ng, um cientista da computação de Stanford, repreendeu uma sala cheia de estudantes de Stanford que ele estava tentando recrutar para o Coursera: “Você tem que se perguntar, por que eu estudei ciência da computação? E para muitos estudantes, a resposta parece ser, para que eu possa projetar o novo aplicativo de mídia social … Acredito que podemos construir coisas que sejam mais significativas do que isso “.

Há muitas ações que as empresas de tecnologia também devem adotar. As organizações devem explorar as questões éticas e sociais que seus produtos criam: o Google e a Microsoft merecem crédito por pesquisar a discriminação algorítmica, por exemplo, e o Facebook para investigar as câmaras de eco (echo chambers). Torne mais fácil para pesquisadores externos avaliarem os impactos de seus produtos: seja transparente sobre como seus algoritmos funcionam e forneça acesso a dados sob acordos de uso de dados apropriados. (Pesquisadores também precisam ter permissão para auditar algoritmos sem serem processados.) Faça perguntas sociais ou éticas nas entrevistas de contratação, não apenas sobre algoritmos; Se os gerentes de contratação pedissem, os alunos aprenderiam como respondê-los. (Em uma entrevista técnica, o CEO da Microsoft foi questionado sobre o que faria se visse um bebê caído em um cruzamento: a resposta óbvia de pegar o bebê não ocorreu a ele).

As empresas devem contratar as pessoas prejudicadas ou excluídas por seus produtos: cujos rostos seus sistemas de visão computacional não reconhecem e seus emojis sorridentes não representam, cujos currículos são classificados como menos relevantes e cujas opções de moradia eles limitam, que são assediados pela Internet por trolls que eles ajudaram a organizar e fazer pouco para controlar. Contrate cientistas “não-informáticos” e leve-os para palestras na hora do almoço; faça com que eles desafiem as visões de mundo da sua força de trabalho.

É possível que escutar cientistas que não sejam de computação reduzirá a velocidade da máquina do Vale do Silício: visões de mundo diversas podem produzir conflitos. Mas desacelerar em lugares onde pessoas razoáveis podem discordar é uma coisa boa. Em uma época em que até as eleições são vencidas e perdidas nos campos de batalha digitais, as empresas de tecnologia precisam se mover menos rapidamente e quebrar menos coisas.

Introduction to Statistics – Manual de Sobrevivência

63% dos estudantes da UoPeople desistem após falhar no curso de Introdução à Estatística.

A sentença acima é falsa, mas só de ler já dá ansiedade. Exemplo tosco do poder da estatística. Assim começo a postagem dedicada ao curso de Introduction to Statistics da University of the People.

Do que se trata

O curso foca nos conceitos básicos de estatística descritiva e probabilidade, especialmente em preparar o estudante a pensar “estatisticamente”. Ao longo das unidades fazemos análises simples, baseadas em dados-modelo fornecidos pela universidade. Estatística inferencial será o foco de outro curso, que será compartilhado posteriormente aqui no blog.

É sempre válido apresentar uma lista com os tópicos principais, assim dá uma noção do que é esperado do estudante: Variáveis discretas e contínuas, distribuição de amostras, teorema do limite central (Central Limit Theorem), lei dos grandes números (Law of Large Numbers), aproximação binomial, variância, desvio padrão, etc. O pacote básico completo de um curso introdutório.

O detalhe das teorias matemáticas não é o foco. Elas são apresentadas sempre sob uma ótica prática. O curso utiliza a linguagem R nos exercícios, portanto é necessária a instalação do programa. Esse ponto faz o curso não ser muito amigável para dispositivos móveis (se alguém souber de bons apps que rodam R, por favor, compartilhe).

Recursos do curso

Conforme citado acima, usamos bastante a linguagem R ao longo das unidades. Instalar e se familiarizar um pouco com ela antes do curso começar pode ajudar, mas dá para ir aprendendo durante os estudos sem problema. O livro de referência se chama “Introduction to Statistical Thinking (With R, Without Calculus)”, de Benjamin Yakir. O título é auto explicativo e o livro é bom!

A qualidade dos materiais, exercícios e discussões é acima da média se comparado aos outros cursos, mas, — sempre tem um “mas” —, recomendo estudar pelo Khan Academy antes, durante e depois. Os tópicos mais complicados (Z-Scores, por exemplo) são muito bem explicados no Khan. Sei que essa é minha recomendação em quase todos os cursos, mas não consigo evitar. É difícil superar a didática do Sal.

Estrutura

Adivinhou? Pois é. UoPeople sempre consistente. Aqui também tem Learning Journal, Discussion Forum, Programming Assignments, e Graded Quiz. Vamos por partes:

Learning Journal

Ele segue o padrão de revisar os conceitos e aprendizados da semana. A grande surpresa deste curso para mim foi a instrutora, Jessica Rouen. Foi a melhor que tive até o momento, incluindo vários cursos que ainda não compartilhei no blog. Sem dúvida ela foi uma grande motivação para o curso. Além das revisões, toda semana tem três pequenos exercícios para postar no Journal: funções importantes em R, estimativa de horas de estudo, definição de conceitos (distribuição de amostra x distribuição de uma amostra, por exemplo), e até a elaboração de dicas que você daria para outros estudantes que irão fazer o curso.

Discussion Forum

Da instalação do R até a probabilidade de amostras. Uso de aproximações e modelos matemáticos. Pensamento crítico na análise de dados e dos resultados. Por que utilizar determinado modelo? Para que ele serve? Quais os pontos sensíveis? A maioria dos temas exploram o pensamento crítico sobre o resultado estatístico. Aprendemos que não é sobre calcular cegamente, mas conhecer a origem dos dados, possíveis inconsistências e falácias nos resultados.

Graded Quiz

São duas avaliações durante o curso e uma avaliação final. O peso das três avaliações representa 60% da nota, então é essencial se familiarizar com as questões, fazer todos os Self-Quiz e revisar sempre que possível.

Final Exam

Segue o padrão do Graded Quiz, por isso a importância de estudar bem as questões. O exame é proctored, o que significa que ele deve ser acompanhado pessoalmente (ou online) por um observador. É permitido usar o console do R, o livro do curso, e anotações. Calculadoras básicas são permitidas, mas nada de celular, tablet ou calculadora do computador! Meu método foi criar um documento com um resumo de todas as unidades, com a lista das fórmulas principais e funções de R mais comuns. Foi o suficiente para assegurar uma boa nota, ainda que tenha exigido um certo esforço!

Considerações Finais

É sempre importante lembrar que o objetivo da estatística não é efetuar mil cálculos complicados, com resultados indecifráveis. É saber usar ferramentas que permitam estabelecer sentido no meio do oceano de dados que temos ao nosso redor.

Os métodos estatísticos nos ajudam a chegar ao que se chama de “best educated guess”. Um palpite baseado em conceitos sólidos. Um palpite com esteróides, por assim dizer. Para isso é necessário lidar com a coleta, análise, interpretação, e apresentação de dados. É uma ciência útil para todos os campos, mas que também forma a base teórica dos campos mais “avançados” do momento, como ciência de dados e machine learning. Não perca a oportunidade de fazer esse curso com dedicação! Pode ter a certeza de que ele será útil no futuro.

Como foi Programming Fundamentals na UoPeople

A pergunta mais comum, quando digo que estudo Ciência da Computação, é: “Qual linguagem de programação você aprende no curso?”. Normalmente assim, no singular, como se existisse uma linguagem única capaz de expressar tudo e construir qualquer tipo de programa. Perguntas desse tipo são frequentes e revelam o desconhecimento das pessoas a respeito da tecnologia que nos cerca. “Hoje em dia todo mundo deve aprender a programar”. “Saber programar é uma habilidade em alta demanda”. “Milhares de vagas foram abertas para programadores”. Essas frases estão por toda parte: conversas de bar, artigos de jornal, anúncios e ofertas de cursos online. Programar é o Santo Graal da modernidade, capaz de resolver todos os problemas do mundo e de quebra garantir aquele salário anual de seis dígitos.

Programming Fundamentals é o primeiro curso de programação para a maioria dos alunos da UoPeople. É possível fazer cursos que trabalham com programação antes dele, mas é em Fundamentals que a atividade de programar está no centro do curso. Ele é a base para basicamente todos os outros cursos de CS da universidade, e de também nos ajuda a entender as limitações da computação. Ele remove a aura sagrada em torno do tópico e revela a dura realidade do ato de programar.

Os objetivos do curso

Em Fundamentals entramos na história e no desenvolvimento das linguagens de programação. Aprendemos como planejar um programa, antes de efetivamente programá-lo, utilizando modelos conceituais como pseudo code e fluxogramas, que ajudam a aprimorar a lógica de um programa, sua funcionalidade e execução. Desenvolvemos programas básicos em Python, e, finalmente, discutimos as vantagens e desvantagens de certos paradigmas de programação.

A introdução do curso destaca a importância de entender profundamente os tópicos, e não apenas completar burocraticamente os exercícios. São conceitos que serão revisitados constantemente nos cursos adiante, assumindo que já sabemos os fundamentos apresentados em Programming Fundamentals. É o alicerce de toda a construção que está por vir.

Como se preparar

Apesar do curso ser introdutório, recomendo entender o que será abordado com antecedência. Neste caso, é importante preparar a mente para entrar no “modo programador”. É o que em inglês chamam de mindset. Para minha (e nossa) sorte, nosso colega Dan Fletcher (que já citei aqui anteriormente) fez uma ótima postagem com o “manual de sobrevivência” para o curso. Ele dá dicas práticas de como instalar Python, a importância do processo de debugging, o conceito de ler-pesquisar-perguntar (read-search-ask), e compartilha sites excelentes para praticar o que aprendemos.

Para os ansiosos, vale dar uma “folheada” no livro do curso, Think Python. A versão online é dinâmica, com linguagem simples e ilustrativa. Ela contém vários exercícios interativos e que podem ser executados diretamente no navegador.

A dinâmica do curso

A UoPeople é consistente na estrutura dos cursos. Todos possuem exercícios de discussão (discussion assignments), diários de aprendizado (learning journals), e provas de múltipla escolha (graded quiz). Em Programming Fundamentals a diferença está nos exercícios de redação (written assignments), que se tornam exercícios de programação (programming assignments).

Os tópicos abordados nos discussion assignments giram em torno de conceitos genéricos de programação, como linguagens compiladas/linguagens interpretadas, linguagens formais, linguagens naturais. A maioria dos temas não possuem uma resposta absoluta, o que encaixa muito bem no formato de debate proposto. Quem espera só escrever código pode se surpreender. Os conceitos apresentados em English Composition 1 e 2 serão úteis aqui, especialmente se o instrutor for rígido com a qualidade dos textos e o uso de citações e referência APA.

Os exercícios de programação exigem a criação de pequenos programas de cálculo, de interface simples com o usuário e manipulação de documentos/dados. Quem tem experiência prévia com programação, mesmo que básica, não terá dificuldades. Praticamente todos os exercícios exigem a criação de um modelo conceitual em pseudo code/flowchart, que deve ser submetido junto com o código em Python. É um trabalho adicional que pode torcer o nariz de alguns, mas é uma forma excelente de praticar como documentar adequadamente o programa e garantir que o código seja claro para a revisão de terceiros.

Por fim, os testes de múltipla escolha abordam o conteúdo do livro Think Python e sobre a história da computação. É aqui que a quantidade de conteúdo pode ficar pesada. O curso utiliza o livro de Roy A. Allan, “A History of the Personal Computer”. É uma obra extensa, um tanto desorganizada e desatualizada, que entra nos mínimos detalhes de cada época na evolução dos computadores. Para evitar se perder na quantidade de informação, recomendo fazer os self quiz antes de ler os capítulos de cada unidade. Anote apenas o que cai nos testes e passe “superficialmente” sobre o conteúdo restante.

Mesmo com todas as falhas, o livro de história abre bastante a cabeça para a complexidade por trás do longo desenvolvimento da computação. Ele mostra como evoluções no hardware contribuem para evoluções no software, e vice-versa. Reúne publicações históricas de cada década, fala sobre a computação amadora, empresas como Tandy/Radio Shack, Altair, Namco e Atari. Processadores como o Intel 8008. Personalidades como Ada Lovelace, Charles Babbage, John von Neumann, Claude Shannon, Nolan Bushnell e Toru Iwatani.

Resumão

Este é um curso que vai além de muitos cursos introdutórios de programação que vemos pela internet. Não pela qualidade técnica, mas pela abrangência. Ele não se resume a ensinar o uso de variáveis, funções, operadores lógicos, estruturas de looping, data structures e data types. Ele vai além, misturando história, conceitos de desenvolvimento de software e exercícios práticos.

A habilidade mais importante de um cientista da computação é a resolução de problemas”. Este é um paradigma que devemos manter durante todo o curso. Não se trata de aprender essa ou aquela linguagem, mas de internalizar a capacidade de resolver problemas de forma estruturada. “Programar é o processo de quebrar uma tarefa grande, complexa, em tarefas cada vez menores e suficientemente simples para serem realizadas por instruções computacionais básicas”. Aprendemos que a tarefa mais difícil ao desenvolver um programa é conceitualizar suas instruções de forma organizada. Programar é resolver um problema, é atender uma necessidade. O programa deve ter um propósito.

Para alguns o parágrafo acima pode soar óbvio, mas sei que para outros tantos não é. É comum esquecermos esses princípios. Muitos se distraem querendo saber qual linguagem será a mais popular, ou qual linguagem é “melhor”. Descobrimos que não há resposta absoluta, e que muitas respostas dependem do contexto e do problema. Manter isso em mente é o melhor caminho para sobreviver à Programming Fundamentals e manter o foco durante a longa jornada em busca do bacharelado em Ciência da Computação.

Como sempre, estou à disposição em caso de dúvidas. É só comentar ou entrar no grupo de estudantes no Facebook.

Reflexões sobre o filme Marighella

Dia 15 de fevereiro de 2019 estreou Marighella no Festival de Cinema de Berlim. Assisti o filme na sessão do dia seguinte, e de lá para cá venho sendo impactado não só pela sua narrativa, mas também pela verdadeira guerra de discursos que tomou a imprensa e a internet.

Canais como Mamãe Falei e do Movimento Brasil Livre lançaram uma série de vídeos desqualificando o diretor, atores e o personagem retratado. “Desmascarando Wagner Moura”, “Mídia Gringa Detona”, “Boicote Nacional” são alguns dos títulos apocalípticos. A página do filme no Imdb foi inundada com milhares de avaliações negativas. Notícias da imprensa tradicional sobre o filme foram soterradas de comentários, imagens e memes, majoritariamente negativos.

Minha intenção aqui não é avaliar o filme em seus aspectos técnicos, defender ou atacar a equipe envolvida ou a história de Carlos Marighella. Existem jornalistas, críticos e historiadores muito mais tarimbados que já fizeram ou irão fazer um trabalho muito melhor. Minha intenção é apenas refletir sobre a reação que está ocorrendo no ambiente digital. Marighella lutou nas ruas com violência, e agora a luta pelo domínio narrativo de sua história está sendo parte de uma luta simbólica feroz.

A arte é feita para perturbar; a ciência tranquiliza”, já disse George Braque. Não conhecia essa frase até recentemente, e ela faz todo o sentido neste contexto. Não lembro, na memória recente, de um filme brasileiro que tenha causado tanta revolta como Marighella. Isso é ainda mais impressionante considerando que, na data em que escrevo, ele ainda nem estreou no Brasil. Muitos ataques assumem que o filme exalta Marighella, contra argumentando que ele foi apenas um terrorista, enquanto a questão do terrorismo está sim presente no filme, e é colocada de forma muito interessante na narrativa.

Marighella é um filme intenso, bonito, feio, bagunçado e violento. Durante a minha sessão algumas pessoas saíram no meio. Amigos gringos próximos comentaram que a violência retratada foi inesperada e chocante. A maioria aplaudiu, outros tantos saíram em silêncio. É uma obra que claramente fez muita gente pensar. Que coloca dilemas morais intensos diante do espectador. É uma obra que perturba. É a arte de que Braque fala.

A intenção central deste post é ajudar um pouco o leitor confuso que está pesquisando sobre Marighella e fica desconfortável quando lê ataques tão intensos contra um filme. A ironia de toda essa reação é que ela gera mídia espontânea e atiça a curiosidade. Digo para observar as pessoas que atacam o filme. O que elas defendem? Quem elas são? Por que elas estão falando tanto sobre algo que nem assistiram?

Para mim, o incômodo nos outros diz muito. Isso, por sí só, revela o argumento central sobre a importância desta obra. Ela incomoda uma galera que, em sua maioria, está alinhada com o governo que temos atualmente no Brasil. Por que o discurso pretensamente vencedor está se sentindo tão ameaçado?

Assista Marighella e tire suas próprias conclusões.

College Algebra na UoPeople

Após longa pausa estou de volta com mais uma postagem da série de cursos da UoPeople. Um dos motivos do retorno é por conta do preparo que costumo fazer antes de retomar os estudos. Esta semana volto com Databases 1.

A revisão de College Algebra é especialmente especial porque é um dos cursos que geram mais perguntas dos estudantes. Também é o que causa mais ansiedade. É natural. Matemática não é o forte da maioria e a educação brasileira é, digamos, deficitária neste quesito. O objetivo aqui é tirar um pouco dessa ansiedade, ou pelo menos ajudar na identificação dos pontos fracos e fortes. Ficamos ansiosos com o que não conhecemos.

 

Descrição do Curso

O objetivo é fornecer uma base sólida em álgebra, trigonometria e geometria analítica. Quando se diz base, é porque realmente serão tópicos demandados nos demais cursos adiante, como Introdução à Estatística, Cálculo e Matemática Discreta, por exemplo.

O curso inclui o estudo de funções lineares, quadráticas e racionais, além de introduzir funções exponenciais, logarítmicas e cálculo de círculos. Mais uma vez, tópicos que serão revisitados em outros cursos adiante.

 

Dinâmica

O material principal do curso é o livro Precalculus, de Carl Stitz e Jeff Zeager. As unidades basicamente demandam o estudo autônomo dos capítulos, com sugestão de exercícios para completar em cada capítulo. Temos também aqui o fórum de discussão, peer-reviewed exercises e o learning journal.

A dificuldade de cada unidade varia bastante. Me considero um estudante fraco em matemática, mesmo assim não tive dificuldades específicas para aprender os conceitos. De qualquer forma, considerando a grade curricular padrão no Brasil, classifico o curso como sendo relativamente difícil. As unidades de polinomiais, funções logarítmicas e exponenciais e trigonometria são especialmente desafiadoras. A parte de trigonometria especialmente por ser no final do curso, quando já estamos com menos energia. Algumas, por outro, são relativamente simples, como funções e sistemas de equações.

Claro que essa percepção irá variar bastante de aluno para aluno, bem como a familiaridade prévia dos conceitos de cada unidade.

 

Crítica

Para mim, em termos de estrutura, College Algebra foi um dos cursos mais fracos da UoPeople até o momento. O conteúdo é espremido no conceito de discussion forum + learning journal + peer-reviewed exercises + self-quiz + graded quiz. Na prática não funciona muito bem. O instrutor da minha classe não estimulou o engajamento no fórum e as discussões foram, em sua maioria, burocráticas e entediantes. Alguns exercícios foram confusos, e o livro não é um exemplo de didatismo. São faltas graves no contexto de um curso online que se propõe acessível e moderno.

 

Exame Final

O formato do exame final é semelhante ao dos quizzes apresentados nas unidades, porém não espere perguntas repetidas ou simples. Creio que a prova é gerada aleatoriamente e no meu caso caíram várias questões de trigonometria, o tópico que estudei menos.

A prova deve ser realizada sob a presença de um supervisor. Como sempre, utilizei ProctorU pela comodidade e não tive problemas. Dentre os exames finais, este é o que possui as instruções mais detalhadas. É permitido o uso de calculadora simples, o que quase ninguém mais têm hoje em dia. Calculadora científica, celulares, tablets e dispositivos similares são proibidos. Não pode checar cadernos nem materiais de referência.

 

Dicas

A principal, de longe, é: revise o conteúdo com antecedência e estude por vias alternativas! É importante identificar os pontos fortes e fracos e atacar os fracos antes do curso começar. Os prazos são curtos, o conteúdo é intenso e matemática enferrujada não se azeita em dois meses. Use e abuse de sites como Khan Academy ou similares. O ritmo de estudo nele pode ser lento, mas os tópicos são explicados com muita qualidade. Você aprende a lógica por trás dos conceitos, o que o material deste curso, assim como a maioria dos materiais de matemática, não sabe ou não tem espaço suficiente para fazer com sucesso. A sensação é quase como ter um tutor particular.

Segunda dica: caso não entenda determinado tópico, não hesite em pedir ajuda para o instrutor, colegas ou grupos de estudantes. A inteligência coletiva faz milagres e as pessoas costumam ter recomendações excelentes.

Terceira e última dica: mantenha a consistência! Esse ponto foi o meu maior erro e afetou significativamente a minha performance no curso. Não deixe as coisas para o exame final. Complete todos os exercícios, por mais tediosos que eles possam ser. O esforço pode ser um pouco maior, porém é distribuído e fará você depender muito menos da nota no exame final. Nele os exercícios são aleatórios e alguns mal-diagramados. Não dependa da sorte.

Espero ter ajudado. Como sempre, caso tenham dúvidas, deixem um comentário!

A luta é uma dança que é uma luta

Imagem da manifestação de resistência a Bolsonaro. Hermann Platz

São coisas misturadas, luta e dança. Mistura e oposição simultâneas. Ambas fazem parte da natureza. Acasalamento e oposição. Criação e morte. Beleza e horror. A existência de uma possibilita a apreciação da outra. As melhores lutas têm um pouco de dança e as melhores danças têm um pouco de luta.

É tempo de resgatar a dança dentro da luta e a luta dentro da dança. Tivemos um vislumbre disso na Hermannplatz, dia 4 de novembro de 2018: Kundgebung des Widerstands gegen Bolsonaro.

Que comecem a música. O primeiro round vai começar.

Quantos somos?

A – Sinto que o mundo está mais conectado. As pessoas viajam mais, conhecem outras culturas…

B – Você acha? Concordo que tem muito mais gente viajando, mesmo assim acho que ainda não é tão representativo.

A – Por que você diz isso? Está tudo lotado de turistas hoje em dia!

B – Mas isso é aqui na Europa. É em cidades específicas. O aumento existe, mas é concentrado.

A – Discordo. Todos os meus amigos viajam. Cada vez que nos encontramos o assunto acaba sendo a última viagem, um novo lugar descoberto.

B – Qual é a representatividade dos seus amigos? Digo, em relação ao mundo? Em relação a 7 bilhões de pessoas no mundo.

A – Mas aí você está indo muito além…

B – Não acho que é muito além. Você falou em mundo conectado. Existe esse discurso de que o mundo está cada vez menor. Mas acho que é uma ideia falsa. Ou, pelo menos, distorcida.

A – Distorcida como?

B – Primeiro pelo argumento da representatividade. Sim, mais gente viaja, mas ainda é uma minoria em termos globais. Boa parte do mundo continua sem recursos básicos e viajar é um luxo. Segundo, tem a desigualdade, mesmo nos países desenvolvidos. Algumas pessoas viajam muito, a maioria pouco ou nunca.

A – De onde você está tirando essa informação?

B – Estamos conversando, não tenho as referências de cabeça. Mas é só dar um Google e ver. Até onde eu lembro 2017 teve por volta de 1.3 bilhões de turistas. É gente pra cacete, mas temos 7.5 bilhões de pessoas no mundo. Não dá nem um quinto do total!

A – Mas cada um que viaja volta com histórias! Espalha entre os amigos, pela família. Esses 1.3 bilhões com certeza influenciam o restante.

B – É um bom ponto, não discordo totalmente. Mas aí entramos na questão qualitativa também.

A – Em quê sentido?

B – Viajar não é um produto acabado. Existem muitas formas de viajar. Pode ser profissional, familiar, sexual, turística. Pegando apenas a turística, acho que em boa parte o ato de viajar se tornou um produto de consumo.

A – E qual é o problema de ser um produto de consumo?

B – O problema é que não existe conexão, como você falou. Existe consumo. Compra, uso e descarte. As pessoas não absorvem a outra cultura de forma significativa. Elas se deslocam fisicamente, consomem, e voltam. É ínfima a parcela que realmente absorve, que realmente se conecta.

A – Essa é a sua opinião. Para você se conectar exige o quê?

B – Sem dúvida é a minha opinião. É o que as pessoas fazem quando conversam. Realmente, para mim conexão é algo que leva tempo. Não pode ser condensada em uma semana, um mês, talvez nem em um ano.

A – Então ninguém se conecta com ninguém? Quantos podem viajar por mais de um ano?

B – Claro que se conecta. Algumas viagens são introduções para algo além. Estabelecemos laços e eles são construídos com o tempo.

A – Então pronto, existe conexão!

B – Existe, isso é inegável. O meu ponto é que isso não é representativo. O discurso de um mundo mais tolerante por causa de tanta gente fazendo mochilão é exagerado. A prova disso é ver o que tem acontecido na política.

A – A maioria dos meus amigos que viajam está chocada com essas mudanças!

B – É claro que estão. Mas o que eles podem fazer? São minoria. Uma minoria conectada com o mundo e desconectada de seu próprio povo…

Jane Goodall

O documentário Jane é o tipo de filme que ultrapassa o próprio tema numa mistura consciente e inconsciente dos autores. Mostra como a vida de uma mulher, um indivíduo, é capaz de tocar em temas universais de uma forma extremamente poderosa. Do papel da mulher na sociedade para o papel do ser humano no mundo, da constituição da família para a construção e destruição de comunidades inteiras, da natureza animal para a natureza humana. Temas poderosos que são apresentados de forma singela, o que torna o resultado final ainda mais tocante.

Para mim a vida de Jane Goodall é uma lição de como o aprendizado vem do equilíbrio entre vivência e reflexão. De como ele pode partir de pura inocência e amor, e ir se desenvolvendo, passo a passo de forma diversa e multifacetada. É uma lição que procuro internalizar o máximo possível e que não poderia deixar de compartilhar.

Aproveitem enquanto Jane está disponível no Netflix.

Obrigado, Lê, pela recomendação!