Quantos somos?

A – Sinto que o mundo está mais conectado. As pessoas viajam mais, conhecem outras culturas…

B – Você acha? Concordo que tem muito mais gente viajando, mesmo assim acho que ainda não é tão representativo.

A – Por que você diz isso? Está tudo lotado de turistas hoje em dia!

B – Mas isso é aqui na Europa. É em cidades específicas. O aumento existe, mas é concentrado.

A – Discordo. Todos os meus amigos viajam. Cada vez que nos encontramos o assunto acaba sendo a última viagem, um novo lugar descoberto.

B – Qual é a representatividade dos seus amigos? Digo, em relação ao mundo? Em relação a 7 bilhões de pessoas no mundo.

A – Mas aí você está indo muito além…

B – Não acho que é muito além. Você falou em mundo conectado. Existe esse discurso de que o mundo está cada vez menor. Mas acho que é uma ideia falsa. Ou, pelo menos, distorcida.

A – Distorcida como?

B – Primeiro pelo argumento da representatividade. Sim, mais gente viaja, mas ainda é uma minoria em termos globais. Boa parte do mundo continua sem recursos básicos e viajar é um luxo. Segundo, tem a desigualdade, mesmo nos países desenvolvidos. Algumas pessoas viajam muito, a maioria pouco ou nunca.

A – De onde você está tirando essa informação?

B – Estamos conversando, não tenho as referências de cabeça. Mas é só dar um Google e ver. Até onde eu lembro 2017 teve por volta de 1.3 bilhões de turistas. É gente pra cacete, mas temos 7.5 bilhões de pessoas no mundo. Não dá nem um quinto do total!

A – Mas cada um que viaja volta com histórias! Espalha entre os amigos, pela família. Esses 1.3 bilhões com certeza influenciam o restante.

B – É um bom ponto, não discordo totalmente. Mas aí entramos na questão qualitativa também.

A – Em quê sentido?

B – Viajar não é um produto acabado. Existem muitas formas de viajar. Pode ser profissional, familiar, sexual, turística. Pegando apenas a turística, acho que em boa parte o ato de viajar se tornou um produto de consumo.

A – E qual é o problema de ser um produto de consumo?

B – O problema é que não existe conexão, como você falou. Existe consumo. Compra, uso e descarte. As pessoas não absorvem a outra cultura de forma significativa. Elas se deslocam fisicamente, consomem, e voltam. É ínfima a parcela que realmente absorve, que realmente se conecta.

A – Essa é a sua opinião. Para você se conectar exige o quê?

B – Sem dúvida é a minha opinião. É o que as pessoas fazem quando conversam. Realmente, para mim conexão é algo que leva tempo. Não pode ser condensada em uma semana, um mês, talvez nem em um ano.

A – Então ninguém se conecta com ninguém? Quantos podem viajar por mais de um ano?

B – Claro que se conecta. Algumas viagens são introduções para algo além. Estabelecemos laços e eles são construídos com o tempo.

A – Então pronto, existe conexão!

B – Existe, isso é inegável. O meu ponto é que isso não é representativo. O discurso de um mundo mais tolerante por causa de tanta gente fazendo mochilão é exagerado. A prova disso é ver o que tem acontecido na política.

A – A maioria dos meus amigos que viajam está chocada com essas mudanças!

B – É claro que estão. Mas o que eles podem fazer? São minoria. Uma minoria conectada com o mundo e desconectada de seu próprio povo…

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O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de escritório que havia numa outra casa, onde em tempos fui empregado. Este rapazito coleccionava folhetos de propaganda de cidades, países e companhias de transportes, tinha mapas — uns arrancados de periódicos, outros que pedia aqui e ali —; tinha, recortadas de jornais e revistas, ilustrações de paisagens, gravuras de costumes exóticos, retratos de barcos e navios. Ia às agências de turismo, em nome de um escritório hipotético, ou talvez em nome de qualquer escritório existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia folhetos sobre viagens para a Itália, folhetos de viagens para a Índia, folhetos dando as ligações entre Portugal e a Austrália.

Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tenho conhecido: era também uma das pessoas mais felizes que me tem sido dado encontrar. Tenho pena de não saber o que é feito dele, ou, na verdade, suponho somente que deveria ter pena; na realidade não a tenho, pois hoje, que passaram dez anos, ou mais, sobre o breve tempo em que o conheci, deve ser homem, estúpido, cumpridor dos seus deveres, casado talvez, sustentáculo social de qualquer — morto, enfim, em sua mesma vida. É até capaz de ter viajado com o corpo, ele que tão bem viajava com a alma.

Recordo-me de repente: ele sabia exactamente por que vias-férreas se ia de Paris a Bucareste, por que vias-férreas se percorria a Inglaterra, e, através das pronúncias erradas dos nomes estranhos, havia a certeza aureolada da sua grandeza de alma. Hoje, sim, deve ter existido para morto, mas talvez um dia, em velho, se lembre como é não só melhor, senão mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.

E, daí, talvez isto tudo tivesse outra explicação qualquer, e ele estivesse somente imitando alguém. Ou… sim, julgo às vezes, considerando a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao cevado que é o nosso destino.

FP

O belo

O belo não tem dono. Não é propriedade de ninguém, é apropriação difusa. É raro, mas é acessível por todo mundo. É consumido sem compreensão. Queremos protegê-lo, tomá-lo, mas ao mesmo tempo não há sentido em escondê-lo. O belo é ambíguo porque é domínio e escravidão. Ele precisa aparecer, mas ao se mostrar ele se perde. Se espatifa em centenas de pedaços, se torna vulgar. Ele é eterno mas também efêmero, é gelo com aparência de mármore: parece sólido porém invariavelmente se desfaz com o tempo.

O belo é benção para os que observam e é maldição para si mesmo.

Assumir responsabilidade

Na última semana pensei bastante no assunto responsabilidade. O contexto foi o caso da marca de roupas Animale e do grupo Soma, que abriga marcas como FARM, a.brand e fábula, entre outras. A denúncia de que o grupo terceiriza a produção para trabalhadores em <eufemismo> “condições análogas à escravidão” </eufemismo> revolta, mas não surpreende, especialmente no contexto da moda.

A reação no Facebook seguiu o protocolo: muita gente postando textão, muitos revoltados (eu, inclusive) entrando na página da marca e comentando nas postagens, anúncio oficial publicado em linguagem corporativa. Hoje em dia é assim: escravidão é “trabalho irregular” e fornecedores vivem num mundo paralelo que exime os contratantes de culpa.

“Nunca mais entro nessa loja!”, “Perdeu um cliente para sempre”, “Que nojo da empresa X”, “Isso é herança do PT”

Estava no meio dessa manifestação em praça digital e a propaganda no topo da página da Animale atraía meu olhar: Bruna Marquezine, Juliana Paes, Alinne Moraes, Sabrina Sato, Mariana Ximenes, Carolina Dieckmann, Luisa Arraes. Se fosse time de futebol seria um Barcelona. Famosas da mais alta estirpe vendendo a imagem para gerar desejo pela marca, nada de novo no mundo do Marketing e da Economia.

Me bateu uma angústia. De quê adianta xingar a Animale? Para quem uma marca responde, qual linguagem que ela usa? Já adianto a resposta: uma marca responde ao mercado, não às pessoas; a linguagem é o corporativês.

Mas lá estava um banner enorme com pelo menos sete das mais famosas atrizes brasileiras. Atrizes que provavelmente não tinham conhecimento do suor de trabalhadores em condições precárias por trás das roupas que vestiam e da produção glamourosa que estrelaram. Pensei no que faria se fosse comigo. Doar o cachê recebido para organizações de proteção ao trabalho seria o mínimo. Resolvi escrever uma mensagem “conclamando” tais atrizes a se pronunciarem. Ganhei curtidas, corações, comentários de apoio. E acabou.

Dias depois estou eu aqui, escrevendo esse texto. Chequei Twitter, Instagram e Facebook de todas as atrizes citadas. Hoje, dia 23/12, quatro dias depois da notícia sobre a Animale sair, nenhuma atriz se pronunciou a respeito. Nada. Nem mesmo uma mensagem protocolar de que estão em contato com a marca para esclarecer, de que não apoiam trabalho escravo ou sobre a importância do consumo consciente de forma genérica. N-A-D-A.

E aí o assunto que ficou martelando foi esse: assumir responsabilidade. Uma marca pode assumir responsabilidade de algo? Ou são as pessoas que estão envolvidas com a marca? Mais uma vez dou a resposta direto: são as pessoas. As pessoas são os consumidores, os funcionários, os artistas, os publicitários, as vendedoras, o presidente do grupo Soma Roberto Jatahy, o diretor de produção (ou seja lá o nome do cargo), os estilistas. Temos uma cadeia enorme de trabalhadores que não são explorados e que simplesmente viram o rosto na hora de assumir a responsabilidade. São deles que temos que demandar uma resposta, um posicionamento humano para reparar uma situação profundamente desumana.