O que é Design Humano?

Mês passado compartilhei uma entrevista com Yuval Harari e Tristan Harris. Nela, ambos discutem o poder da persuasão, os limites do intelecto humano e os impactos decorrentes da popularização de serviços digitais. Sociedade, política, economia, nada escapa de ser profundamente influenciado por tais serviços. Estamos aos poucos entendendo que as consequências são muito mais profundas do que alienação, influência indevida em processos democráticos e reorientação dos valores. O próprio conceito de humanidade e de ser “humano” está em transformação.

Temos visto nos últimos anos diversas análises na mídia especializada, especialmente em veículos internacionais. Elas revelam uma mudança de paradigma sobre as grandes empresas de tecnologia e o Vale do Silício. De “salvadores da pátria” para “culpados” por muitos dos problemas atuais. Foco na lucratividade e um modelo de negócios baseado na monetização de dados pessoais choca-se com valores básicos democráticos e individuais.

O que fazer para evitar isso? Existe uma alternativa?

Tristan Harris afirma que sim. Seu projeto “Center for Humane Technology” propõe que é possível alinhar o desenvolvimento tecnológico com as necessidades humanas básicas. A ideia principal é que podemos seguir um modelo que “acolhe” a natureza humana, ao invés de explorá-la.

No dia 23 de abril de 2019 a organização realizou o evento “Humane: A New Agenda for Tech”. Nele, foi apresentado um diagnóstico preciso do cenário atual, bem como sugestões para o caminho a seguir na implementação desse modelo nos produtos e serviços digitais. As ideias de Tristan já influenciam empresas como Facebook e Google nesse sentido. As propostas de Tristan e sua equipe são importantes para entender a direção que muitas empresas no setor de tecnologia estão tomando recentemente no desenvolvimento de seus produtos.

Me identifico pessoalmente com essas ideias e já procuro aplicá-las nos meus projetos. Sinto que é de extrema importância compartilhá-las com desenvolvedores e engenheiros brasileiros, pois os impactos desses serviços influenciam intensamente nossa sociedade. Em geral, consumimos com pouca visão crítica. Pesquisas demonstram, por exemplo, que o Brasil está segundo lugar no tempo gasto na internet: 9 horas e 29 minutos por dia, atrás apenas da Indonésia!

Quais serviços utilizados durante todo esse tempo? Qual é a qualidade do tempo gasto? O que consumimos?

Isso é assunto para outro texto. O interessante é o mapa que Tristan nos oferece para pensar diferente. Por exemplo, o site da iniciativa tem uma página intitulada “Tome o Controle”, que sugere ações concretas para reduzir o impacto dos aplicativos e das redes sociais sobre a nossa atenção e qualidade de vida:

  1. Desligar todas as notificações, exceto as que partem de pessoas.
  2. Desabilitar as cores do celular (Cinquenta Tons de Cinza).
  3. Manter a tela principal do celular apenas com aplicativos utilitários como mapas, calendário, câmera, agenda, etc.
  4. Recarregar o celular fora do ambiente onde relaxamos ou dormimos.
  5. Remover todos os aplicativos de redes sociais do celular.

Mas o principal item da iniciativa, na minha opinião, é o guia de design. É um documento útil para todos os profissionais envolvidos no desenvolvimento ou promoção de produtos digitais. É uma espécie de mapa que elenca as sensibilidades (e fragilidades) humanas e orienta o processo criativo de design posicionando o ser humano no centro.

As ideias de Tristan Harris são mais do bem-vindas, são essenciais. Gosto muito do fato de serem ideias propositivas. O objetivo central não deve ser orientado sob a maximização do tempo, o uso de anúncios e apropriação de dados pessoais. A internet pode ser muito mais do que isso. Na realidade, ela já oferece muito mais, porém é necessário um esforço ativo para explorar os serviços mais benéficos, enquanto é muito fácil cair na armadilha viciante das redes sociais.

Conhecer e aplicar estas ideias é um passo importante para melhorar a nossa qualidade de vida como indivíduos. Para engenheiros de software e designers, aplicá-las é um imperativo moral coletivo.

A entrevista mais importante de 2018: Yuval Harari e Tristan Harris

Yuval Noah Harari and Tristan Harris interviewed by Wired

Yuval Noah Harari, historiador-estrela, escritor aclamado, conselheiro global sobre o futuro da humanidade.

Tristan Harris, ex-designer do Google, diretor e cofundador do Centro para a Tecnologia Humana, um dos mais influentes pensadores na área de design persuasivo.

Os dois estão juntos, a convite da Wired Magazine, para uma interessante conversa a respeito do poder da persuasão em tempos digitais. Grande destaque é dado para os limites da mente humana e como ela é influenciável. É o reconhecimento de que os humanos são animais manipuláveis, e como a crença na escolha humana é uma ilusão.

A conversa é extremamente interessante por reunir um historiador e um cientista da computação, ambos preocupados com os rumos da humanidade. Na minha opinião, eles dão um diagnóstico preciso do momento presente e mostram possíveis caminhos para um futuro mais justo e próspero.

Yuval e Tristan são pensadores essenciais para entendermos o confuso momento do agora. Eles também são relativamente pouco conhecidos no Brasil e no mundo em desenvolvimento, o que é uma lástima. Portanto, fica a recomendação. Com certeza discutirei suas ideias com mais profundidade nas próximas postagens.

Consulta Pública: Estratégia Brasileira para a Transformação Digital

Pego o celular de manhã e checo se tem mensagens no Whatsapp. Leio algumas, escuto um áudio de dez minutos e paro no meio porque lembro que queria ver o perfil de não sei quem no Instagram. Claro que a timeline prende minha atenção, sem falar das stories de pessoas aleatórias que me surpreendem por compartilhar um dia aleatório da semana sem absolutamente nada de especial.

O uso do celular é frenético. Ondas orgásticas de informação, fotos, áudios antes mesmo de levantar da cama amarrotada. Minha cara ainda está amassada mas já viajei por uns 10 países diferentes, li cinco comentários sem pé nem cabeça e esqueci o que precisava fazer quando peguei o celular. Ah é, as mensagens no Whatsapp.

Me irrita que até julgar sobre o comportamento caótico no celular é um tema batido. Todo mundo sabe que é uma merda e continua fazendo. Cocaína coletiva. Que se dane. Melhor curtir a festa e entrar na onda.

Aparece um e-mail nas notificações: Convite para Consulta Pública – Estratégia Brasileira para a Transformação Digital:

A Secretaria de Política de Informática do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (SEPIN/MCTIC) está coordenando a elaboração da Estratégia Brasileira para a Transformação Digital (EBTD), em articulação com os setores competentes do campo científico, governamental, produtivo e da sociedade civil.

Mas quê? Alguém avisou? Me chamaram assim, em cima da hora? O Brasil tem dessas?

Pois é, recebi o convite uns 10 dias antes de encerrar a participação. No meio da falta de estratégia pessoal no uso do celular veio a luz da estratégia da Secretaria de Política de Informática do MCTIC. Nem pensei se sou qualificado. Sou usuário civil e sei que está tudo errado! Sou a prova viva da putaria digital.

A boa notícia é que eles ampliaram a participação até meados de setembro. Corri à toa.

Guarda esse link abaixo para participar. Mas primeiro assista o vídeo genial do Trevor Noah sobre o Trump, Greg News sobre Partidos e comenta no grupo da família contra o #AceleraSp.

Consulta Pública EBTD