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O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de escritório que havia numa outra casa, onde em tempos fui empregado. Este rapazito coleccionava folhetos de propaganda de cidades, países e companhias de transportes, tinha mapas — uns arrancados de periódicos, outros que pedia aqui e ali —; tinha, recortadas de jornais e revistas, ilustrações de paisagens, gravuras de costumes exóticos, retratos de barcos e navios. Ia às agências de turismo, em nome de um escritório hipotético, ou talvez em nome de qualquer escritório existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia folhetos sobre viagens para a Itália, folhetos de viagens para a Índia, folhetos dando as ligações entre Portugal e a Austrália.

Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tenho conhecido: era também uma das pessoas mais felizes que me tem sido dado encontrar. Tenho pena de não saber o que é feito dele, ou, na verdade, suponho somente que deveria ter pena; na realidade não a tenho, pois hoje, que passaram dez anos, ou mais, sobre o breve tempo em que o conheci, deve ser homem, estúpido, cumpridor dos seus deveres, casado talvez, sustentáculo social de qualquer — morto, enfim, em sua mesma vida. É até capaz de ter viajado com o corpo, ele que tão bem viajava com a alma.

Recordo-me de repente: ele sabia exactamente por que vias-férreas se ia de Paris a Bucareste, por que vias-férreas se percorria a Inglaterra, e, através das pronúncias erradas dos nomes estranhos, havia a certeza aureolada da sua grandeza de alma. Hoje, sim, deve ter existido para morto, mas talvez um dia, em velho, se lembre como é não só melhor, senão mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.

E, daí, talvez isto tudo tivesse outra explicação qualquer, e ele estivesse somente imitando alguém. Ou… sim, julgo às vezes, considerando a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao cevado que é o nosso destino.

FP

Escrever

Escrever. Colocar uma ideia no papel. Pegar no lápis, movimentar a mão, rabiscar símbolos. Desenho. Passar tinta na parede. Esfregar a mão. Representar. Contar uma história. Não pensar, não julgar, não apagar. Fluidez. Inocência. Simplicidade. Autenticidade. Bater o pé no chão. Assobiar. Bater uma mão na outra. Ouvir. Repetir. Sentar e observar. Olhar para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita. Respirar. Respirar mais fundo. Sentir o coração.

Enfrentando English Composition 2

Até agora postei todos os resumos de curso na ordem em que completei. Me pareceu lógico, até para me ajudar na revisão das matérias enquanto estou de férias. Porém hoje decidi trocar a ordem. O próximo curso seria College Algebra, mas acho melhor agrupar os cursos de “humanas” primeiro e depois focar nos mais técnicos, portanto é a vez de English Composition 2.

Cursos com número ao lado me intimidam. Lembro dos tempos de Técnicas e Gêneros Jornalísticos 2, ou até amigos engenheiros estudando Cálculo 3, e a sensação de que você já deve estar manjando muito, ultrapassando o básico e mergulhando num mundo de especialização e experiência. Como tantas coisas na vida, quando você chega lá, percebe que não é nada assim.

Isso é especialmente verdade com English Composition 2 (EC2) na University of the People. Um curso que em muitos aspectos é uma repetição de EC1, com pitadinhas a mais de conteúdo aqui e ali e menos foco em tópicos realmente básicos de redação, conforme vimos no post anterior.

Em EC2 o objetivo principal do curso é acompanhar o aluno na elaboração de um trabalho de pesquisa acadêmico, bem como no desenvolvimento das técnicas necessárias neste processo. Escrita, análise dos componentes, avaliação de referências, identificação de conceitos-chave, técnicas de síntese, leitura crítica e práticas de pesquisa são os principais tópicos abordados ao longo das oito unidades.

A questão da proficiência no inglês, tão recorrente entre os interessados em participar da UoPeople, já foram respondidas na postagem de EC1 e dos cursos anteriores. Este curso parte do princípio que o aluno possui inglês funcional para leitura e trabalhos escritos. Para se ter uma referência do nível, um dos trabalhos pede a análise de um texto de James Joyce, o que definitivamente é uma obra que usa a língua inglesa de forma complexa. A avaliação dos colegas (peer-to-peer) nos trabalhos é ainda mais crítica (e frequentemente injusta) em EC2. Variações nas notas dos trabalhos são comuns, dependendo do grupo de alunos selecionado para te avaliar. Costuma ser necessário recorrer ao instrutor do curso nos casos mais extremos de nota injusta, porém mantenho a recomendação de não se apegar tanto à pequenas variações.

Um dos pontos mais interessantes do curso é a questão da análise crítica, extremamente válida nos dias de hoje em que tantas pessoas têm dificuldade para interpretar informação. Um dos materiais contém uma lista de questões que vale imprimir e colocar no espelho do banheiro, para ler todas as manhãs:

1-) Qual é o título e o assunto do texto?

2-) Qual é a posição do autor? Como eu sei disso?

3-) Quais evidências o autor apresenta para embasar as ideias? Como eu sei disso?

4-) As evidências são válidas? Como eu sei disso?

5-) As evidências são relevantes? Como eu sei disso?

6-) Eu já ouvi/li algo similar antes? O quê foi?

7-) Eu concordo ou discordo da posição expressa pelo autor? Por quê?

Sete questões que lembram bastante as jornalísticas “Quem, o quê, onde, como, quando e por quê”, que se aprende na faculdade e se ignora na profissão. Teorias importantíssimas para todos os outros cursos adiante, seja em Business Administration ou Computer Science.

O principal elemento de EC2 é o trabalho acadêmico, cujo tópico acima está intimamente relacionado. O curso mergulha no passo-a-passo necessário para compor um academic paper, destrinchando o conceito de tese, antítese e síntese, metodologias de pesquisa quantitativa e qualitativa e o desenvolvimento de um Abstract. O desenvolvimento do trabalho acadêmico permeia todas as unidades do curso e é um exercício bem interessante de fazer logo no início da vida acadêmica. Aqui vai a principal dica: escolha o tema do trabalho o mais cedo possível. Cada unidade do curso vai “montando” a pesquisa aos poucos, usando os Learning Journals, então, se você decidir mudar o tópico lá na frente, vai dar trabalho para escrever tudo de novo. Decidir o tema antes garante que você vai distribuir o esforço ao longo de oito semanas.

Quanto aos Discussion Assignments, não tem segredo. Eles seguem mais ou menos o padrão de EC1, talvez com alguns tópicos um pouco mais desafiadores e textos mais complexos. Algumas unidades possuem textos muito bons, como por exemplo o artigo “Fear & Loathing in America”, de Hunter S. Thompson. Gostei tanto da discussão que adaptei meu texto de discussão e publiquei no medium para quem tiver interesse.

O aspecto central do curso é bastante elevado. É a busca pelo pensamento crítico e pela independência intelectual. Algumas atividades exigem que o aluno escolha o tópico e faça a pesquisa individualmente. Parece algo óbvio, mas é legal pensar sobre os assuntos que te interessam e transformá-los em uma pesquisa estruturada. Não existe assunto certo ou errado, é o processo de pesquisa que importa. Em um dos trabalhos, por exemplo, falei da mineração ilegal em terra indígenas apoiada por agentes do Estado no Brasil.

O curso tem potencial de melhorar muito, mas para mim ele atende muito bem o requisito de encontrar um propósito na atividade acadêmica. Estudar não serve para tirar notas altas e ganhar um papel estiloso com o seu nome no final. Estudar é exploração, é resolver problemas, encontrar soluções. Para isso ser efetivo é importante um mínimo de estrutura e é disso que EC2 trata.

Sobre Globalization na UoPeople

Considero que este foi o meu primeiro curso “real” da universidade. Não é um curso que ensina como estudar, que foca em regras de formatação acadêmica e organização de anotações. O tópico é Globalização e o objetivo é debater o assunto de forma estruturada ao longo das oito unidades. Foi nele que meu inglês foi realmente testado, bem como minha capacidade de pesquisa, síntese e escrita. Foi também o primeiro curso em que encontrei alguns pontos negativos sobre a universidade, que serão mencionados abaixo.

 

Objetivos do Curso

Segundo o plano de aulas, temos o seguinte:

– Explicar os conceitos e debates básicos sobre globalização econômica.

– Identificar e explicar os impactos da globalização em seus vários aspectos.

– Analisar a complexidade da globalização, suas múltiplas perspectivas, posições dos grupos de interesse e críticos entre várias culturas, bem como desenvolver sua própria visão sobre a questão.

– Sugerir estratégias e métodos para reduzir os danos e os impactos negativos do processo de globalização.

São tópicos amplos. O primeiro ponto que destaco dos itens acima, e que se comprova ao longo das unidades, é que o curso exige pesquisa, posicionamento e postura crítica. No curso este ponto quanto à postura crítica é realmente chave para o sucesso nos trabalhos.

 

Esforço esperado

Sei que esta é a principal dúvida de quem lê uma postagem como essa. Minha sensação é que o curso não foi especialmente exigente, porém muitos colegas desistiram do curso na primeira semana, comentando que ele exige muita leitura.

Isso é correto e incorreto ao mesmo tempo. O curso começa exigente e ao longo das unidades vai se tornando mais fácil e um tanto repetitivo. O fichamento de leitura da primeira semana, por exemplo, ficou com mais de 12 páginas. Ao longo das unidades, porém, esse número se reduziu para 4 ou 5 páginas de anotações, em média. O esforço maior, portanto, é na primeira unidade. Não se assuste! Diria que dá para levar com tranquilidade investindo cerca de 6-8 horas semanais.

Meu instrutor no curso exigia um mínimo de palavras nos trabalhos. Uma postagem no fórum de discussão, por exemplo, deveria ter pelo menos 100 palavras. Submissões no Learning Journal, 500 palavras. Os trabalhos escritos, entre 700 e 1200 palavras. Somando tudo isso realmente dá uma quantidade respeitável por semana (cerca de 2000 palavras), especialmente para quem não gosta ou não tem costume de escrever.

 

Materiais de estudo

O curso não tem um livro específico. O principal recurso é o site Globalization101.org, um projeto do Instituto LEVIN, da Universidade Estadual de Nova Iorque. É um dos meus pontos “negativos” do curso, pois é um material relativamente desatualizado. Por exemplo, um dos textos sobre Tecnologia ainda destaca o Orkut como rede social popular! A primeira unidade, com mais leituras, possui fontes mais diversificadas, porém isso diminui da metade do curso para o final.

O lado positivo é que se espera uma postura ativa do aluno para pesquisar além dos materiais fornecidos. Os conhecimentos adquiridos no curso de English Composition 1 e Online Education Strategies vêm a calhar e a sensação é que a lógica de como os cursos são ordenados faz todo o sentido.

Minha dica para o aluno ansioso é ler os artigos do site 101 antecipadamente. Se familiarize com os assuntos antes do curso começar. Minha recomendação dos tópicos principais abordados: Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Bretton Woods, Metas de Desenvolvimento do Milênio, Declaração dos Direitos Humanos, internet como plataforma econômica, cultural e política, Subsídios Agrários em Países Desenvolvidos, BRICS, UNASUL, Joseph Schumpeter, Dra. Vandana Shiva.

 

Posicionamento nos textos

Este item é sempre complicado, pois a construção intelectual é algo profundamente pessoal. Entretanto duas dicas básicas, e talvez um tanto óbvias, valem como guia genérico para todos os trabalhos.

  1. Não é esperado apoio incondicional aos textos. É esperada, sim, uma postura crítica sobre o assunto, com posicionamento pessoal claro e estruturado.
  2. Todos os trabalhos devem ter referência externa. Formato APA, citações, paráfrases (vide English Composition 1 e OLS). O suporte de materiais que indiquem que o aluno pesquisou é obrigatório.

Como exemplo de estrutura, compartilho um dos exercícios de redação. O tema foi destacar um exemplo de efeito negativo da globalização. Escolhi falar da construção da BR-364 com recursos do Banco Mundial, seus efeitos no desmatamento e posteriormente no conflito de terras que levou ao assassinato de seringueiros, entre eles Chico Mendes. Subi o texto no Medium aqui.

 

Considerações Finais

O curso é interessante, pois aborda um tópico “familiar” de maneira relativamente profunda e multifacetada. O termo “globalização” costuma aparecer nos noticiários de forma superficial e poucas pessoas conseguem elaborar sobre seus efeitos ou desenvolver uma opinião estruturada à respeito.

A grande vantagem da UoPeople neste quesito é a educação compartilhada e a revisão entre os alunos. Existem poucas universidades no mundo com um corpo estudantil tão diversificado, em todos os sentidos (cultural, econômico, social). São grandes as chances de entrar em contato com visões totalmente diferentes da nossa a respeito da Globalização.

Esta é, inclusive, uma das vantagens para estudantes brasileiros. Fazemos parte de um país em desenvolvimento (até quando?), localizado na América do Sul, até hoje fora dos grandes centro de pesquisa, desenvolvimento e de influência global. Trazer a nossa perspectiva para classe é super relevante. Percebi que era capaz de participar das discussões com profundidade. Ao longo do curso fui capaz de refinar os motivos que me levaram a estudar na UoPeople e entender um pouco mais sobre minha posição no mundo.

Minha recomendação final é que o aluno começando a UoPeople não desista por conta da primeira semana. É comum ter Globalization junto com Online Education Strategies como os dois primeiros cursos de “graduação”. São cursos que fazem bastante sentido no início dos estudos, portanto não recomendo deixar para depois!

O belo

O belo não tem dono. Não é propriedade de ninguém, é apropriação difusa. É raro, mas é acessível por todo mundo. É consumido sem compreensão. Queremos protegê-lo, tomá-lo, mas ao mesmo tempo não há sentido em escondê-lo. O belo é ambíguo porque é domínio e escravidão. Ele precisa aparecer, mas ao se mostrar ele se perde. Se espatifa em centenas de pedaços, se torna vulgar. Ele é eterno mas também efêmero, é gelo com aparência de mármore: parece sólido porém invariavelmente se desfaz com o tempo.

O belo é benção para os que observam e é maldição para si mesmo.

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Penso às vezes com um agrado (em bissecção) na possibilidade futura de uma geografia da nossa consciência de nós próprios. A meu ver, o historiador futuro das suas próprias sensações poderá talvez reduzir a uma ciência precisa a sua atitude para com a sua consciência da sua própria alma. Por enquanto vamos em princípio nesta arte difícil — arte ainda, química de sensações no seu estado alquímico por ora. Esse cientista de depois de amanhã terá um escrúpulo especial pela sua própria vida interior. Criará de si mesmo o instrumento de precisão para a reduzir a analisada. Não vejo dificuldade essencial em construir um instrumento de precisão, para uso auto-analítico, com aços e bronzes só do pensamento. Refiro-me a aços e bronzes realmente aços e bronzes, mas do espírito. É talvez mesmo assim que ele deva ser construído. Será talvez preciso arranjar a ideia de um instrumento de precisão, materialmente vendo essa ideia, para poder proceder a uma rigorosa análise íntima. E naturalmente será necessário reduzir também o espírito a uma espécie de matéria real com uma espécie de espaço em que existe. Depende tudo isso do aguçamento extremo das nossas sensações interiores, que, levadas até onde podem ser, sem dúvida revelarão, ou criarão, em nós um espaço real como o espaço que há onde as coisas da matéria estão, e que, aliás, é irreal como coisa.

Não sei mesmo se este espaço interior não será apenas uma nova dimensão do outro. Talvez a investigação científica do futuro venha a descobrir que tudo são dimensões do mesmo espaço, nem material nem espiritual por isso. Numa dimensão viveremos corpo; na outra viveremos alma. E há talvez outras dimensões onde vivemos outras coisas igualmente reais de nós. Apraz-me às vezes deixar-me possuir pela meditação inútil do ponto até onde esta investigação pode levar.

Talvez se descubra que aquilo a que chamamos Deus, e que tão patentemente está em outro plano que não a lógica e a realidade espacial e temporal, é um nosso modo de existência, uma sensação de nós em outra dimensão do ser. Isto não me parece impossível. Os sonhos também serão talvez ou ainda outra dimensão em que vivemos, ou um cruzamento de duas dimensões; como um corpo vive na altura, na largura e no comprimento, os nossos sonhos, quem sabe, viverão no ideal, no eu e no espaço. No espaço pela sua representação visível; no ideal pela sua apresentação de outro género que a da matéria; no eu pela sua íntima dimensão de nossos. O próprio Eu, o de cada um de nós, é talvez uma dimensão divina. Tudo isto é complexo e a seu tempo, sem dúvida, será determinado. Os sonhadores actuais são talvez os grandes precursores da ciência final do futuro. Não creio, é claro, numa ciência final do futuro. Mas isso nada tem para o caso.

Faço às vezes metafísicas destas, com a atenção escrupulosa e respeitosa de quem trabalha deveras e faz ciência. Já disse que chega a ser possível que a esteja realmente fazendo. O essencial é eu não me orgulhar muito com isto, dado que o orgulho é prejudicial à exacta imparcialidade da precisão científica.

(FP, LdD)

Online Education Strategies na UoPeople

Introdução

Seguindo com a série de posts sobre os cursos da UoPeople, chegou a hora de falar de Online Education Strategies (OES), normalmente um dos primeiros cursos “reais” da universidade depois do filtro de English Composition 1.

É um curso introdutório, apesar de já valer pontos no GPA. Por conta disso ele costuma receber pouca atenção dos alunos. A maioria procura tirar ele da lista para começar os cursos de programação ou negócios (e virar um degree-seeking student). Nos grupos do Face não há muitos recursos ou referência sobre os tópicos abordados nele. Quem passa não lembra direito como foi, fala que é tranquilo e pronto. Isso com certeza não ajuda a diminuir a ansiedade de quem está começando os estudos na UoPeople.

Para escrever o post reli todas as anotações que fiz durante o curso. Percebi nesse processo o quão importante ele é e como não devemos deixá-lo numa posição secundária. OES é a bússola que te orienta durante a jornada acadêmica pela universidade e muitos textos da bibliografia são úteis também para o nosso desenvolvimento pessoal. Foi muito interessante revisitar os exercícios que fiz um, ano depois, especialmente começando 2018 cheio de planos.

Enfim, sem mais delongas, vamos às perguntas e respostas.

 

1-) O que é Online Education Strategies?

É um curso que familiariza os calouros da UoPeople com o ambiente de aprendizado online. Estilo primeiro dia na escola. É uma introdução aos recursos disponíveis, aos métodos acadêmicos, políticas, código de conduta e expectativas em relação à performance do estudante na universidade. Mas o curso vai além, cobrindo também técnicas de gerenciamento de tempo, inteligência emocional, técnicas de estudo, pensamento crítico e desenvolvimento de objetivos pessoais e acadêmicos.

Bastante coisa, né? E nesse ponto ressalto que a qualidade dos textos é boa, bem como as lições que você tira deles caso se envolva com o conteúdo. Uma reclamação comum de muitos estudantes é que todo esse papo teórico é tedioso, porém minha primeira dica é fazer esse curso com o coração aberto. Os próximos tópicos vão explicar melhor o que eu quero dizer.

 

2-) Concretamente, o que o curso aborda?

Assim como todos os demais cursos na universidade, OES é dividido em oito unidades, divididas em oito semanas. Tem uma unidade nove, que abrange quatro dias e é reservada para o exame final. Os tópicos de cada unidade são:

– Boas vindas e Introdução à UoPeople

– Integridade Acadêmica e Conduta Ética

– Métodos Educacionais da UoPeople Pt.1

– Abordagem Educacional da UoPeople Pt.2

– Gerenciamento de Tempo e de Estresse

– Técnicas de Estudo e Preparo de Prova

– O que é o pensamento crítico e porque ele é importante

– Desenvolvimento de Objetivos Pessoais e Acadêmicos.

O curso não possui um livro de referência. Ele consiste de vários textos e sites e pode ser que o conteúdo mude um pouco de tempos em tempos. De qualquer forma o objetivo dele é claro: empoderar o aluno, familiarizá-lo com a instituição que está entrando e em como organizar sua vida acadêmica e pessoal. Sinceramente fico surpreso como muitas faculdades / universidades brasileiras não têm algo parecido. Somos jogados na vida acadêmica sem entender qual é a filosofia da instituição em que estamos tomando parte. A UoPeople possui uma missão própria, com valores estabelecidos. É super importante como aluno entender esses valores e aplicá-los, especialmente no contexto de um ambiente acadêmico digital.

 

3-) Como se preparar para o curso? Preciso estudar algo antes?

Na postagem sobre English Composition 1 destaquei que o inglês se torna um requisito básico nos cursos, afinal a UoPeople é uma universidade americana. Online Education Strategies oferece a primeira oportunidade para testar efetivamente seus conhecimentos de leitura e escrita em tópicos variados. Para entender o que estou falando recomendo a leitura deste texto: Bloom’s Taxonomy of Learning Domains. Ou este breve estudo: The Effectiveness and Development of Online Discussion.

Se você entendeu os textos acima com facilidade e é capaz de sintetizar as ideias em uma dissertação, pronto, o requisito básico você já tem. O curso não requer muito preparo além disso: leitura e escrita funcional da língua inglesa, com bom uso do vocabulário. Dá para usar o Google Translator? Claro que dá. Porém convenhamos que traduzir o texto leva tempo e que o resultado final não é lá dessas coisas. OES é um curso que te ajuda a ter um parâmetro de como a exigência do inglês será nos próximos cursos, então faça uma auto-avaliação profunda e decida se não é melhor fazer aquele curso de redação em inglês no Coursera.

Em relação aos materiais do curso, não acho que a leitura prévia seja necessária. Vá com a mente aberta, participe ativamente dos fóruns de discussão e faça os exercícios propostos. Não transforme o curso como um “preparo inútil” para o que você realmente quer estudar na universidade. No mínimo ele fará você ajustar seus objetivos acadêmicos e formas de organizar o dia a dia.

Se a ansiedade é grande recomendo a leitura do About Us no site da UoPeople. Assista ao TED com o Shai Reshef (se ainda não assistiu), leia ativamente (anotando) a missão e os valores da universidade. São tópicos que farão parte das discussões e exercícios e com certeza te deixam com ainda mais orgulho de ter escolhido a UoPeople como alma mater. Caso você realmente queira se familiarizar com os tópicos antes, disponibilizei uma lista dos conceitos principais no final do post.

 

4-) Preciso trabalhar com referência APA nesse curso também?

Sim.

Aplique essa resposta para TODOS os cursos que eu postar aqui no blog, assim evito repetir essa pergunta.

 

5-) Como tirar boas notas nos exercícios, quizzes e fórum?

O sistema de peer assessment, em que cada estudante é responsável por revisar e avaliar o trabalho de seus pares, é fonte de ansiedade entre muitos alunos. Escolas e universidades tradicionais não costumam ter nada parecido. De vez em quando, no máximo, um exercício sobre como avaliar o trabalho do colega, ou uma atividade de auto-avaliação. Nada com a extensão e importância que há no sistema de peer assessment da UoPeople.

Entrarei em detalhes sobre como funciona esse sistema em outro post. Compartilho aqui as técnicas que segui durante o curso e que me fizeram ter poucos problemas de nota:

 

– Leia os textos com atenção, use-os e cite corretamente.

Parece um item óbvio mas muitos estudantes simplesmente ignoram os textos, ou claramente escrevem algo adaptado deles mas não citam. É o principal motivo de redução de nota entre os alunos, de longe. Cite, cite, cite! Coloque as referências! Use o Bibme para te guiar.

– Escreva com atenção. Revise antes de postar.

Muita gente escreve correndo. O texto final fica sem fluidez, repetitivo e com erros gramaticais bobos. Revise o texto, compartilhe com alguém na família ou amigo que é bom no inglês. Escreva num dia, deixe ele “descansar” e revise no dia seguinte. Você vai se surpreender como é possível melhorar e aprimorar o resultado final.

Atenção com a gramática

Está relacionado com o tópico acima, porém merece um reforço. Nos cursos iniciais os estudantes estão empolgados e costumam dar um peso extra na revisão gramatical. Sim, muitas vezes a correção será injusta. Sim, você pode ter um Nobel de Literatura inglesa e alguém vai apontar defeitos. Evite pedidos de revisão de nota fazendo o máximo esforço para que nenhum erro gramatical óbvio passe. Dica: Use o Grammarly para revisar os textos, a versão gratuita já ajuda bastante!

Não leve as avaliações para o pessoal

Um colega te dá nota baixa em todas as suas postagens no fórum? Não deixe a raiva subir à cabeça e se vingue dando nota baixa de volta. Se o seu colega não tem critérios claros na hora de revisar o seu texto isso deve servir de ensinamento sobre a importância de dar notas justas e apropriadamente justificadas. Mantenha a classe e não comece um ciclo vicioso de notas baixas com alguém. Isso vale principalmente para o fórum de discussões, onde é possível identificar indiretamente quem te dá nota.

Nessa fase o principal desafio é se acostumar com a dinâmica do sistema de peer assessment. Não precisa se estressar com alguns pontos descontados aqui ou ali. O peso de todos os exercícios avaliados por colegas (Written Assignments e Discussion Assignments) fica em torno de 20% da nota em OES, então dá para compensar facilmente nos demais exercícios (Learning Journal, Graded Quizzes e Final Exam). Lembre-se que diante de injustiças você pode sempre recorrer ao instrutor do curso.

 

6-) Como é o exame final?

O exame segue o formato dos Self-Quizzes e Graded-Quizzes: o familiar sistema com perguntas de múltipla escolha. O segredo aqui é simples e direto: faça todos os testes de cada unidade! Mesmo o Self-Quiz, que não vale nota, é essencial para te deixar familiarizado com a estrutura da prova. O exame final é baseado nessas questões, algumas vezes até com questões idênticas. O peso dos Graded Quizzes e do Final Exam gira em torno de 70% da nota. Espero ter te convencido.

 

Conclusão

Online Learning Strategies é um curso que fez bastante sentido para mim quando comecei os estudos na UoPeople. Recomendo que você aproveite ele ao máximo, se envolva nos exercícios e use esse período para entender a filosofia da universidade, conhecer colegas do mundo todo, fazer contatos e abrir a mente. Os materiais do curso em geral são bons e os exercícios propostos são desafiadores na medida certa.

Em caso de dúvidas não hesite em postar nos comentários ou entrar em contato.

 

Referência de tópicos do curso e recursos úteis

  • SMART Goals
  • 7 habits of highly effective people
  • Ladder of Inference
  • Starbursting
  • Root Cause Analysis
  • Critical Thinking
  • Bloom Taxonomy
  • College Info Geek

English Composition 1 na UoPeople

Uma breve introdução

Esta é a primeira postagem do projeto de resumo de cursos que prometi a mim mesmo que faria antes de 2017 terminar. Como dá para perceber estou simbolicamente garantindo o cumprimento da promessa postando literalmente no último dia do ano.

O objetivo é fazer um resumo de cada curso que já fiz na University of the People. A ideia é tirar as dúvidas básicas de quem está começando e/ou decidindo quais cursos escolher para o próximo período. Acompanho bastante vários grupos de estudantes (Facebook, Whatsapp, Yammer, Slack) e é comum ver as mesmas perguntas sendo repetidas ad infinitum, cenário perfeito para montar um guia informal e ajudar os novos alunos a navegar na universidade. Reconheço que o ensino online / à distância não é muito “natural”. A maioria de nós teve uma base educacional tradicional, sem ênfase na proatividade. Estudar na UoPeople muitas vezes exige exatamente o oposto do que é esperado em instituições educacionais tradicionais.

Pretendo seguir um formato bem simples nessas postagens, quase um bate-papo. Provavelmente o formato será adaptado dependendo do curso. Já adianto que não vou compartilhar exercícios ou detalhes de cada unidade. O ponto é passar uma ideia geral do que o curso aborda, dicas para entrar no curso preparado e desmistificar tópicos que geram ansiedade injustificada. Então vamos lá!

 

1-) O que é English Composition 1?

Você chegou a fazer aula de redação? Então. É mais ou menos a mesma coisa, só que em inglês. O dicionário define composition como “trabalho criativo, especialmente um poema ou peça de música”. Pois bem, no contexto da UoPeople o foco é no desenvolvimento da linguagem, leitura e escrita. É o curso base da universidade para todos os alunos que não comprovaram proficiência na língua inglesa no momento da admissão. Os detalhes sobre como comprovar o conhecimento da língua estão disponíveis no catálogo da Universidade, é só pesquisar “UoPeople Catalog” no Google.

Como estamos falando de uma universidade, o foco do curso é na escrita e leitura acadêmica. É importante ter isso em mente! Esse curso não possui um livro principal e sim vários materiais menores, geralmente em PDF, adaptados para o contexto da UoPeople. Ele também usa alguns textos e artigos espalhados pela internet afora.

 

2-) Como é esse negócio de inglês acadêmico?

No final das contas é mais simples do que parece, mas vou ser honesto logo de cara: se o seu inglês é básico não vai rolar. Se é “intermediário” você vai ter dificuldade. O curso assume que os conhecimentos de gramática do aluno já estejam relativamente consolidados e é só necessário dar uma polida. O material inicialmente foca na estrutura da língua inglesa e na eliminação de vícios textuais. Por isso fiz acima o paralelo com as aulas de redação em português. A abordagem é mais ou menos equivalente.

A primeira dica que deixo aqui não segui pessoalmente, mas muitos alunos recomendam como preparo o curso de English Composition I da Duke University, no Coursera. Batendo o olho nos objetivos e na agenda posso confirmar que a estrutura é bem parecida com a da UoPeople.

 

3-) Então é só sobre escrever melhor?

Não! O curso também aborda as etapas básicas que constituem o processo de escrever um texto acadêmico. Isso envolve métodos para anotar sobre tudo o que você utiliza como referência; como delinear um parágrafo; ler de forma crítica e selecionar fontes confiáveis. Ele também fala bastante sobre formas de apresentar suas ideias e, principalmente, como citar tudo o que você leu para escrever o texto (a.k.a. citação e referência).

O “tudo” em negrito não faz jus nem de longe sobre a importância deste item, portanto vou fazer um tópico só para ele abaixo.

 

4-) Qual é essa história de citar e colocar referência em tudo?

Quem já fez trabalho acadêmico e iniciação científica provavelmente lembra com muito carinho das famosas regras de formatação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Se não sabe o que é, dá um Google. Pois é, a UoPeople combate AGRESSIVAMENTE plagiarismo por parte dos alunos. Em bom português de raiz, copy-paste da internet. Um dos elementos para garantir que nada está sendo copiado é citar tudo, seja de forma literal ou parafraseada. Você vai aprender tudo exaustivamente durante o English Composition 1 e 2.

 

5-) Como faz para ser aprovado no curso?

Talvez esta seja a pergunta mais comum. Sinceramente está bem explicado no programa de estudos, mas vale esclarecer em português (tradução livre):

“Os estudantes devem atingir 73% ou mais no curso para atender o requisito de proficiência em inglês na UoPeople”.

Mas não é só isso e talvez por isso fique confuso para algumas pessoas:

“Uma vez que a proficiência na língua inglesa é uma habilidade essencial para o sucesso na UoPeople, os estudantes devem atingir uma pontuação mínima de 60 no exame final”.

Isso significa que mesmo que você tire 10 em tudo ao longo do curso, caso sua prova seja um desastre, já era. O exame final tem em si tem um peso de apenas 25% na composição geral da nota, porém a barreira dos 60 pontos é extremamente importante! Se esforce ao máximo até o último minuto do exame final.

 

6-) E como é esse exame final?

English Composition 1 tem um aspecto relativamente único (pelo menos até agora, de acordo com a minha experiência em outros cursos). O exame final é um teste genérico de inglês que não tem uma relação direta com os tópicos abordados durante o curso. Isso pega alguns estudantes de surpresa.

A intenção aqui não é assustar. O exame não é difícil para quem já tem um pouco de familiaridade com a língua. O que assusta é o contexto do exame, com todas as novidades da universidade e o requerimento de um proctor para acompanhar a prova. Tudo isso deixa alguns alunos ansiosos e por isso vale ir bem preparado, sabendo mais ou menos o que irá enfrentar.

 

7-) O curso é difícil?

Deixei essa para o final porque considero uma pergunta relativa. Difícil em qual contexto? Qual é o seu contexto ao fazer esta pergunta?

O contexto da minha resposta é que fiz English Composition 1 tendo uma boa base do inglês e dos conceitos que envolvem a produção de um texto acadêmico. Mesmo assim não conhecia as regras da APA, por exemplo. Para quem já teve que seguir as regras da ABNT é moleza, principalmente porque existe bem mais ferramentas disponíveis para te auxiliar com a formatação APA na internet.

Consegui levar o curso investindo cerca de quatro ou cinco horas por semana, no máximo. É pouco e mais para frente tem cursos muito mais exigentes (15-20 horas de estudo por semana). Ainda assim é um curso desafiador. Muitos alunos não têm familiaridade com textos longos nem em português, que dirá em inglês. Mesmo assim a maioria se acostuma rápido e pega o ritmo logo nas primeiras semanas.

Ele é um ótimo curso para se familiarizar com a dinâmica de estudos da UoPeople. Também te coloca em contato com textos literários (curtos) de alto nível de autores consagrados, como Anton Chekov, Jack London e Oscar Wilde. Independente de ter escolhido Computer Science, Business Administration ou Health Sciences, a universidade procura demonstrar com esse curso que a linguagem é base essencial para a construção do conhecimento.

 

Conclusão

Essa foi a primeira postagem da série. Reconheço que deixei alguns tópicos importantes de lado, mas não quis desviar muito o foco. Só a questão do proctor dá um post, por exemplo. A dinâmica dos fóruns de discussão, os exercícios de escrita e as avaliações entre os alunos (peer assessment) também. Aos poucos vou escrever sobre tudo isso. Caso tenha alguma solicitação especial é só comentar e pedir! Críticas e sugestões são sempre bem-vindas.

Aproveito mais uma vez para compartilhar o link do grupo no Facebook. Ele está aberto para todos os estudantes e interessados na universidade. Entre e participe!

 

Por hoje é só.

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De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.

Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.

Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.

Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo — desde a nascença e a consciência —, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.

Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade por um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

(Fernando Pessoa, LdD, 1997)

Assumir responsabilidade

Na última semana pensei bastante no assunto responsabilidade. O contexto foi o caso da marca de roupas Animale e do grupo Soma, que abriga marcas como FARM, a.brand e fábula, entre outras. A denúncia de que o grupo terceiriza a produção para trabalhadores em <eufemismo> “condições análogas à escravidão” </eufemismo> revolta, mas não surpreende, especialmente no contexto da moda.

A reação no Facebook seguiu o protocolo: muita gente postando textão, muitos revoltados (eu, inclusive) entrando na página da marca e comentando nas postagens, anúncio oficial publicado em linguagem corporativa. Hoje em dia é assim: escravidão é “trabalho irregular” e fornecedores vivem num mundo paralelo que exime os contratantes de culpa.

“Nunca mais entro nessa loja!”, “Perdeu um cliente para sempre”, “Que nojo da empresa X”, “Isso é herança do PT”

Estava no meio dessa manifestação em praça digital e a propaganda no topo da página da Animale atraía meu olhar: Bruna Marquezine, Juliana Paes, Alinne Moraes, Sabrina Sato, Mariana Ximenes, Carolina Dieckmann, Luisa Arraes. Se fosse time de futebol seria um Barcelona. Famosas da mais alta estirpe vendendo a imagem para gerar desejo pela marca, nada de novo no mundo do Marketing e da Economia.

Me bateu uma angústia. De quê adianta xingar a Animale? Para quem uma marca responde, qual linguagem que ela usa? Já adianto a resposta: uma marca responde ao mercado, não às pessoas; a linguagem é o corporativês.

Mas lá estava um banner enorme com pelo menos sete das mais famosas atrizes brasileiras. Atrizes que provavelmente não tinham conhecimento do suor de trabalhadores em condições precárias por trás das roupas que vestiam e da produção glamourosa que estrelaram. Pensei no que faria se fosse comigo. Doar o cachê recebido para organizações de proteção ao trabalho seria o mínimo. Resolvi escrever uma mensagem “conclamando” tais atrizes a se pronunciarem. Ganhei curtidas, corações, comentários de apoio. E acabou.

Dias depois estou eu aqui, escrevendo esse texto. Chequei Twitter, Instagram e Facebook de todas as atrizes citadas. Hoje, dia 23/12, quatro dias depois da notícia sobre a Animale sair, nenhuma atriz se pronunciou a respeito. Nada. Nem mesmo uma mensagem protocolar de que estão em contato com a marca para esclarecer, de que não apoiam trabalho escravo ou sobre a importância do consumo consciente de forma genérica. N-A-D-A.

E aí o assunto que ficou martelando foi esse: assumir responsabilidade. Uma marca pode assumir responsabilidade de algo? Ou são as pessoas que estão envolvidas com a marca? Mais uma vez dou a resposta direto: são as pessoas. As pessoas são os consumidores, os funcionários, os artistas, os publicitários, as vendedoras, o presidente do grupo Soma Roberto Jatahy, o diretor de produção (ou seja lá o nome do cargo), os estilistas. Temos uma cadeia enorme de trabalhadores que não são explorados e que simplesmente viram o rosto na hora de assumir a responsabilidade. São deles que temos que demandar uma resposta, um posicionamento humano para reparar uma situação profundamente desumana.