Reflexões sobre o filme Marighella

Dia 15 de fevereiro de 2019 estreou Marighella no Festival de Cinema de Berlim. Assisti o filme na sessão do dia seguinte, e de lá para cá venho sendo impactado não só pela sua narrativa, mas também pela verdadeira guerra de discursos que tomou a imprensa e a internet.

Canais como Mamãe Falei e do Movimento Brasil Livre lançaram uma série de vídeos desqualificando o diretor, atores e o personagem retratado. “Desmascarando Wagner Moura”, “Mídia Gringa Detona”, “Boicote Nacional” são alguns dos títulos apocalípticos. A página do filme no Imdb foi inundada com milhares de avaliações negativas. Notícias da imprensa tradicional sobre o filme foram soterradas de comentários, imagens e memes, majoritariamente negativos.

Minha intenção aqui não é avaliar o filme em seus aspectos técnicos, defender ou atacar a equipe envolvida ou a história de Carlos Marighella. Existem jornalistas, críticos e historiadores muito mais tarimbados que já fizeram ou irão fazer um trabalho muito melhor. Minha intenção é apenas refletir sobre a reação que está ocorrendo no ambiente digital. Marighella lutou nas ruas com violência, e agora a luta pelo domínio narrativo de sua história está sendo parte de uma luta simbólica feroz.

A arte é feita para perturbar; a ciência tranquiliza”, já disse George Braque. Não conhecia essa frase até recentemente, e ela faz todo o sentido neste contexto. Não lembro, na memória recente, de um filme brasileiro que tenha causado tanta revolta como Marighella. Isso é ainda mais impressionante considerando que, na data em que escrevo, ele ainda nem estreou no Brasil. Muitos ataques assumem que o filme exalta Marighella, contra argumentando que ele foi apenas um terrorista, enquanto a questão do terrorismo está sim presente no filme, e é colocada de forma muito interessante na narrativa.

Marighella é um filme intenso, bonito, feio, bagunçado e violento. Durante a minha sessão algumas pessoas saíram no meio. Amigos gringos próximos comentaram que a violência retratada foi inesperada e chocante. A maioria aplaudiu, outros tantos saíram em silêncio. É uma obra que claramente fez muita gente pensar. Que coloca dilemas morais intensos diante do espectador. É uma obra que perturba. É a arte de que Braque fala.

A intenção central deste post é ajudar um pouco o leitor confuso que está pesquisando sobre Marighella e fica desconfortável quando lê ataques tão intensos contra um filme. A ironia de toda essa reação é que ela gera mídia espontânea e atiça a curiosidade. Digo para observar as pessoas que atacam o filme. O que elas defendem? Quem elas são? Por que elas estão falando tanto sobre algo que nem assistiram?

Para mim, o incômodo nos outros diz muito. Isso, por sí só, revela o argumento central sobre a importância desta obra. Ela incomoda uma galera que, em sua maioria, está alinhada com o governo que temos atualmente no Brasil. Por que o discurso pretensamente vencedor está se sentindo tão ameaçado?

Assista Marighella e tire suas próprias conclusões.

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