Estudantes da UoPeople: Greyce Riquinho

Foto de Greyce Riquinho no escritório da door2door em Berlim, Alemanha.
Greyce Riquinho, estudante da University of the People e programadora na door2door

O interesse por uma universidade ou curso normalmente envolve algumas questões previsíveis: O curso é difícil? Quanto tempo leva para se formar? Tem diploma no final? Quais são as matérias mais difíceis? Ele é reconhecido no Brasil?

Todas são perguntas válidas, porém acredito que elas focam em questões que não tocam no que deveria ser central em tudo o que envolve educação: o que os alunos fazem durante e depois do curso? Existem projetos multidisciplinares? Existe uma empresa júnior? Os alunos são engajados em alguma causa?

Para mim, educação deve gerar, na maioria das vezes (nem sempre, portanto), um produto prático. Educação deve falar com a população, deve desenvolver algo com a sociedade, deve empoderar o indivíduo e a comunidade em seu entorno.

É por isso que histórias como a da Greyce Riquinho, colega na UoPeople, merecem destaque. Histórias que revelam o impacto prático do poder da educação, especialmente quando a educação é flexível e acessível. Sua história está disponível em detalhes no blog oficial da empresa em que trabalha, door2door. É uma história inspiradora, e que revela o poder da educação em conjunto com a determinação de se reinventar. Sem dúvida é do interesse de todas e todos que se interessam em estudar, mas têm dúvidas se existe algum resultado “real” depois de tanto esforço. É claro que a universidade não é individualmente responsável pelo sucesso da Greyce. A história dela é o resultado de inúmeras variáveis, algumas que só ela sabe quais são. Mas não deixa de ser um exemplo de sucesso, e um exemplo de que temos colegas engajadas em projetos e empregos incríveis em todos os cantos do mundo.

Assumir responsabilidade

Na última semana pensei bastante no assunto responsabilidade. O contexto foi o caso da marca de roupas Animale e do grupo Soma, que abriga marcas como FARM, a.brand e fábula, entre outras. A denúncia de que o grupo terceiriza a produção para trabalhadores em <eufemismo> “condições análogas à escravidão” </eufemismo> revolta, mas não surpreende, especialmente no contexto da moda.

A reação no Facebook seguiu o protocolo: muita gente postando textão, muitos revoltados (eu, inclusive) entrando na página da marca e comentando nas postagens, anúncio oficial publicado em linguagem corporativa. Hoje em dia é assim: escravidão é “trabalho irregular” e fornecedores vivem num mundo paralelo que exime os contratantes de culpa.

“Nunca mais entro nessa loja!”, “Perdeu um cliente para sempre”, “Que nojo da empresa X”, “Isso é herança do PT”

Estava no meio dessa manifestação em praça digital e a propaganda no topo da página da Animale atraía meu olhar: Bruna Marquezine, Juliana Paes, Alinne Moraes, Sabrina Sato, Mariana Ximenes, Carolina Dieckmann, Luisa Arraes. Se fosse time de futebol seria um Barcelona. Famosas da mais alta estirpe vendendo a imagem para gerar desejo pela marca, nada de novo no mundo do Marketing e da Economia.

Me bateu uma angústia. De quê adianta xingar a Animale? Para quem uma marca responde, qual linguagem que ela usa? Já adianto a resposta: uma marca responde ao mercado, não às pessoas; a linguagem é o corporativês.

Mas lá estava um banner enorme com pelo menos sete das mais famosas atrizes brasileiras. Atrizes que provavelmente não tinham conhecimento do suor de trabalhadores em condições precárias por trás das roupas que vestiam e da produção glamourosa que estrelaram. Pensei no que faria se fosse comigo. Doar o cachê recebido para organizações de proteção ao trabalho seria o mínimo. Resolvi escrever uma mensagem “conclamando” tais atrizes a se pronunciarem. Ganhei curtidas, corações, comentários de apoio. E acabou.

Dias depois estou eu aqui, escrevendo esse texto. Chequei Twitter, Instagram e Facebook de todas as atrizes citadas. Hoje, dia 23/12, quatro dias depois da notícia sobre a Animale sair, nenhuma atriz se pronunciou a respeito. Nada. Nem mesmo uma mensagem protocolar de que estão em contato com a marca para esclarecer, de que não apoiam trabalho escravo ou sobre a importância do consumo consciente de forma genérica. N-A-D-A.

E aí o assunto que ficou martelando foi esse: assumir responsabilidade. Uma marca pode assumir responsabilidade de algo? Ou são as pessoas que estão envolvidas com a marca? Mais uma vez dou a resposta direto: são as pessoas. As pessoas são os consumidores, os funcionários, os artistas, os publicitários, as vendedoras, o presidente do grupo Soma Roberto Jatahy, o diretor de produção (ou seja lá o nome do cargo), os estilistas. Temos uma cadeia enorme de trabalhadores que não são explorados e que simplesmente viram o rosto na hora de assumir a responsabilidade. São deles que temos que demandar uma resposta, um posicionamento humano para reparar uma situação profundamente desumana.